A Implantação do Estado Policial no Rio de Janeiro III

25/01/2010

Quais as verdadeiras razões da Ocupação das Favelas ?

Parte 3 – Situação Pré-UPP

Rorschachbr
PlanetaPrisão
Segunda 25 de Janeiro Última atualização 22 de Fevereiro

Após analisar os exageros noticiados pela mídia sobre a ocupação das favelas da Zona Sul, onde os problemas são minimizados e os pequenos progressos supervalorizados, gostaria de traçar um panorama da situação caótica em que viviam, e sob certos aspectos ainda vivem, os moradores dessa região. Antes, um pouco de história:a facção Comando Vermelho predominou durante a década de 90, época em que começaram a surgir notícias do tipo: “ apreendidas com traficantes cariocas armas usadas na Guerra do Golfo (1990) “. No início da década pouco ou quase nada ouvia-se sobre facções na área da Zona Sul. Lembro-me de uma mini-série da Globo chamada Bandidos da Falange exibida em 1983, mas na prática só a partir do assassinato do traficante Orlando Jogador e vários comparsas em 1994 é que a mídia passou a destacar os confrontos entre diferentes grupos pelo controle de territórios. Já não era possível uma boca de fumo ser considerada “neutra” como em outros tempos, era preciso escolher um lado, chegou o tempo de guerra.

Apesar de alguns acertos de contas terem ocorrido internamente, o domínio do Comando Vermelho sobre a Zona Sul foi uma época de paz. Pode parecer piada mas não é. Enquanto sangrentas batalhas estavam sendo travadas em outras regiões da cidade, na Zona Sul era só tranquilidade. Qualquer semelhança com a situação atual não é mera coincidência. Não havia mais confrontos. Em todos os morros os bailes eram gratuitos pois o comércio de drogas era muitíssimo lucrativo. Um dos maiores fenômenos dessa época foi o baile do Leme, favela conhecida hoje na mídia como Chapéu Mangueira, um imenso ponto de venda e consumo de drogas a céu aberto. Era um convívio verdadeiramente democrático entre usuários de todas as classes e raças. Esta foi a época em que a classe média misturou-se de vez com a favela. Fazer parte ou conhecer alguém do tráfico passou a ser sinônimo de status e poder no asfalto. Não foi pouco o número de jovens abandonando seus lares para viver no morro, o risco era pequeno, não havia confronto com inimigos. E a polícia ? Bem, a polícia era sempre vista na parte de baixo. Qualquer semelhança com a situação atual…

Como nada é para sempre o fantasma da guerra urbana voltou a assombrar a Zona Sul no ano de 2004, quando rumores de uma invasão a favela da Rocinha começaram a circular. O chefe do tráfico era o Lulu, mas foi ordenado pela cúpula do CV que deveria passar o cargo para o Dudu e ocorreu um fato pouco comum: a favela da Rocinha trocou de facção ! A hegemonia do Comando Vermelho na Zona Sul tinha chegado ao fim ! Para o cidadão que não frequenta as comuni…, desculpe, favelas talvez isto não tenha muita importância, mas quem reside ou até mesmo tem familiares para visitar nestes locais sabe muito bem o que significa: não é aconselhável um morador da favela controlada por uma facção circular na favela dominada por outra facção. Sim, “ controlada ”, este é o termo correto. O Estado (ou estado?) pouco ou nada faz por estes locais. Uma obra de maquiagem tipo favela-bairro, do maquiavélico César Maia (perdoem o trocadilho), alguns cursos básicos oferecidos pelas associações de moradores (onde quem manda é o tráfico) e só. A vida dos moradores gira em torno do tráfico de drogas, desde o patrocínio de eventos passando pela solução de conflitos, tudo é resolvido lá na “ boca “. As guerras e rumores de guerra voltaram a Zona Sul e todos sabem o impacto que tiveram na mídia. Que importa que há anos a Zona Norte sofre com os mesmos problemas? Alguém de fato acredita que os governantes estão preocupados com os moradores de outras regiões que não a Zona Sul ? Tá bom, tem a Barra da Tijuca e o Recreio que são Zona Oeste, mas são tratados como uma continuação da Zona Sul e não tem favelas com o perfil de uma Rocinha ou Vidigal. É só comparar com o grande bairro de Jacarépaguá, por exemplo, onde existem cidadãos com poder aquisitivo comparável aos da Zona Sul mas que não gozam de tratamento igual pelas autoridades (in)competentes principalmente na área de segurança, visto que proliferaram as milícias, muitas vezes apoiadas pelos próprios moradores acuados pelo medo e o abandono a que foram legados.

A aparente normalidade da Zona Sul tinha sido quebrada, voltaram os confrontos, mas nem de longe poderia ser comparada as Zona Norte e Oeste, onde o controle do tráfico era absoluto em determinados pontos, que a polícia somente fazia operações durante o dia, e mesmo assim com um grande contingente. E claro, sendo recebida a bala. Mas se a violência na Zona Sul era incomparavelmente menor, qual o fator que desencadeou a ocupação em massa de várias favelas em um tempo recorde ?

Você descobrirá na próxima parte desta série…

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A Implantação do Estado Policial no Rio de Janeiro II

13/01/2010

Quais as verdadeiras razões da Ocupação das Favelas ?

Parte 2 – Situação Atual

Rorschachbr
PlanetaPrisão
Quarta 13 de Janeiro

Como já explicado na 1ª parte é necessário assistir ao vídeo do RJTV para entender o artigo.

http://rjtv.globo.com/Jornalismo/RJTV/0,,MUL1420256-9097,00.html

No depoimento do “ produtor cultural ” (confesso que não sei o que é isso) MC Fiel, é relatado que com a chegada da UPP “ o que mudou foi o tiroteio, que não existe mais.É isso que todas comunidade quer. “ Bem Fiel, não só toda comu…(epa), favela quer viver sem tiroteios, mas todos os cariocas também. Até aí nenhuma novidade. Continuando: “ Essa unidade pacificadora ainda tem que ser melhorada no meu ponto de vista, porque os jovens ainda continuam sofrendo alguns tipos de truculências, e a gente não quer conflitos, a gente quer dialogar para poder ter um cotidiano melhor, uma vida melhor. “ Bem, eu também não iria querer conflitos com a PM, mas o que será que ele quis dizer com “ truculências “? Porque não forneceu detalhes mais específicos ? Apenas os jovens que estão “sofrendo “?

Voltemos a nossa sorridente repórter (que não mora na favela) que anuncia estar com uma representante da “ nova polícia “( a antiga polícia foi extinta? ), a capitã Priscila que é a comandante da UPP do Dona Marta.” A gente viu ali que os moradores ainda reclamam um pouco dessa convivência com a polícia, às vezes de alguma truculência.Vocês notaram como ela usou as palavras para suavizar a existência das queixas ? “ O que você já sentiu de mudança, de avanço na relação com a comunidade, e o que que pode melhorar ? ”. Agora são palavras positivas: mudança, avanço, melhorar.A capitã começa o discurso: “ Sem dúvida desde o início até hoje, muita coisa já mudou “, humm…, acho que eu já ouvi isso…, “ principalmente no trato do morador com a polícia, no início era uma dificuldade muito grande ,e eu entendo como normal, que o morador não queria ser abordado, isso para eles é algo truculento “.Bem, vamos voltar ao mundo real. Só quem reside ou já residiu em favelas pode saber o quanto pode ser traumatizante a experiência de ser abordado pela polícia. Isso depende de vários fatores, como por exemplo: horário, quantidade de testemunhas, a própria reação do abordado, e talvez o pior de todos, o estado emocional do policial. Dificilmente ouve-se um bom dia, por favor, com licença, a regra padrão é simplesmente aterrorizar. É comum ouvir do policial, mesmo que não tenha nada errado, coisas do tipo: isso não é hora para ficar na rua, bandido também tem documento, etc.. Isso é a pura realidade!

A capitã explica que “ isso faz parte do trabalho policial “ e que “ é dessa forma que se conhece o morador, isso hoje eles recebem de uma forma bem melhor “. Traduzindo: não tem jeito, vai ser sempre desta forma, tem que se acostumar ! Ou vocês preferem do jeito que era antes ? Além do mais, vai reclamar pra quem ? Então, de repente, a nossa repórter sorridente faz uma pergunta que não parece estar no roteiro: ” Mas, hoje, há menos abordagens, já se compara mais ou menos, ao policiamento de um bairro qualquer ? “ Uau! Enfim uma pergunta difícil para a nossa capitã responder ! “Menos abordagens porque a gente já passou a conhecer mais os moradores ( após um ano! ), mas sempre vai ter. “ Peraí, ela não respondeu a pergunta ! Pelo menos não de forma direta. Vamos interpretar: quando ela nos disse que sempre vai haver abordagens, isto quer dizer o seguinte: NÃO, NA FAVELA O POLICIAMENTO SEMPRE VAI SER DIFERENTE ! Ou alguém imagina a polícia abordando pessoas nas ruas do bairro de Botafogo e pedindo documentos, revistando as bolsas, perguntando onde moram, etc…? Vou ser ainda mais incisivo: O MORADOR DA FAVELA VAI CONTINUAR SENDO TRATADO COMO SUSPEITO !

Em seguida são mostradas algumas estatísticas da criminalidade no bairro de Botafogo demonstrando pouca diferença entre antes e depois da UPP. Para não dizer que fui injusto vou falar de algo de bom que não foi mostrado: praticamente desapareceram os pedintes que ficavam nas ruas aterrorizando a população. Eles ficavam quase sempre nas portas dos bancos, fazendo cara de coitadinhos, intimidando as pessoas, principalmente idosos, a darem algum dinheiro. E por que sumiram ? Na verdade, migraram para outros bairros que tenham favelas vendendo crack. Trataremos desse assunto na continuação da série.