A Implantação do Estado Policial no Rio de Janeiro III

Quais as verdadeiras razões da Ocupação das Favelas ?

Parte 3 – Situação Pré-UPP

Rorschachbr
PlanetaPrisão
Segunda 25 de Janeiro Última atualização 22 de Fevereiro

Após analisar os exageros noticiados pela mídia sobre a ocupação das favelas da Zona Sul, onde os problemas são minimizados e os pequenos progressos supervalorizados, gostaria de traçar um panorama da situação caótica em que viviam, e sob certos aspectos ainda vivem, os moradores dessa região. Antes, um pouco de história:a facção Comando Vermelho predominou durante a década de 90, época em que começaram a surgir notícias do tipo: “ apreendidas com traficantes cariocas armas usadas na Guerra do Golfo (1990) “. No início da década pouco ou quase nada ouvia-se sobre facções na área da Zona Sul. Lembro-me de uma mini-série da Globo chamada Bandidos da Falange exibida em 1983, mas na prática só a partir do assassinato do traficante Orlando Jogador e vários comparsas em 1994 é que a mídia passou a destacar os confrontos entre diferentes grupos pelo controle de territórios. Já não era possível uma boca de fumo ser considerada “neutra” como em outros tempos, era preciso escolher um lado, chegou o tempo de guerra.

Apesar de alguns acertos de contas terem ocorrido internamente, o domínio do Comando Vermelho sobre a Zona Sul foi uma época de paz. Pode parecer piada mas não é. Enquanto sangrentas batalhas estavam sendo travadas em outras regiões da cidade, na Zona Sul era só tranquilidade. Qualquer semelhança com a situação atual não é mera coincidência. Não havia mais confrontos. Em todos os morros os bailes eram gratuitos pois o comércio de drogas era muitíssimo lucrativo. Um dos maiores fenômenos dessa época foi o baile do Leme, favela conhecida hoje na mídia como Chapéu Mangueira, um imenso ponto de venda e consumo de drogas a céu aberto. Era um convívio verdadeiramente democrático entre usuários de todas as classes e raças. Esta foi a época em que a classe média misturou-se de vez com a favela. Fazer parte ou conhecer alguém do tráfico passou a ser sinônimo de status e poder no asfalto. Não foi pouco o número de jovens abandonando seus lares para viver no morro, o risco era pequeno, não havia confronto com inimigos. E a polícia ? Bem, a polícia era sempre vista na parte de baixo. Qualquer semelhança com a situação atual…

Como nada é para sempre o fantasma da guerra urbana voltou a assombrar a Zona Sul no ano de 2004, quando rumores de uma invasão a favela da Rocinha começaram a circular. O chefe do tráfico era o Lulu, mas foi ordenado pela cúpula do CV que deveria passar o cargo para o Dudu e ocorreu um fato pouco comum: a favela da Rocinha trocou de facção ! A hegemonia do Comando Vermelho na Zona Sul tinha chegado ao fim ! Para o cidadão que não frequenta as comuni…, desculpe, favelas talvez isto não tenha muita importância, mas quem reside ou até mesmo tem familiares para visitar nestes locais sabe muito bem o que significa: não é aconselhável um morador da favela controlada por uma facção circular na favela dominada por outra facção. Sim, “ controlada ”, este é o termo correto. O Estado (ou estado?) pouco ou nada faz por estes locais. Uma obra de maquiagem tipo favela-bairro, do maquiavélico César Maia (perdoem o trocadilho), alguns cursos básicos oferecidos pelas associações de moradores (onde quem manda é o tráfico) e só. A vida dos moradores gira em torno do tráfico de drogas, desde o patrocínio de eventos passando pela solução de conflitos, tudo é resolvido lá na “ boca “. As guerras e rumores de guerra voltaram a Zona Sul e todos sabem o impacto que tiveram na mídia. Que importa que há anos a Zona Norte sofre com os mesmos problemas? Alguém de fato acredita que os governantes estão preocupados com os moradores de outras regiões que não a Zona Sul ? Tá bom, tem a Barra da Tijuca e o Recreio que são Zona Oeste, mas são tratados como uma continuação da Zona Sul e não tem favelas com o perfil de uma Rocinha ou Vidigal. É só comparar com o grande bairro de Jacarépaguá, por exemplo, onde existem cidadãos com poder aquisitivo comparável aos da Zona Sul mas que não gozam de tratamento igual pelas autoridades (in)competentes principalmente na área de segurança, visto que proliferaram as milícias, muitas vezes apoiadas pelos próprios moradores acuados pelo medo e o abandono a que foram legados.

A aparente normalidade da Zona Sul tinha sido quebrada, voltaram os confrontos, mas nem de longe poderia ser comparada as Zona Norte e Oeste, onde o controle do tráfico era absoluto em determinados pontos, que a polícia somente fazia operações durante o dia, e mesmo assim com um grande contingente. E claro, sendo recebida a bala. Mas se a violência na Zona Sul era incomparavelmente menor, qual o fator que desencadeou a ocupação em massa de várias favelas em um tempo recorde ?

Você descobrirá na próxima parte desta série…

Uma resposta para A Implantação do Estado Policial no Rio de Janeiro III

  1. L, Drummond disse:

    Me lembro bem dessa época, aliás seu lead me remeteu ao Cid Moreira, me lembro dele anunciando com as mesmas palavras que você utilizou “ apreendidas com traficantes cariocas armas usadas na Guerra do Golfo (1990), me lembro também que na época no JN quase todos os dias o jornal abria com uma matéria relativa ao tráfico “Balas traçantes cortam o céu da cidade maravilhosa em comemoração ao tetra” lembro me também dos constantes arrastões que eram promovidos pelos bandidos no Rebouças,no túnel do Joá, etc..
    Notícias sobre balas perdidas também pipocavam me lembro de moradores que moravam proximos a favelas estendendo seus colchonetes em banheiros mostrando-lhes como eles faziam pra dormir quando o tiroteio começava.
    Agora realmente a zona sul vivia uma relativa paz me lembro que da zona sul nos noticiarios os morros mais citados eram: Cantagalo,Dona Marta e Rocinha e o pau comia no Borel e adjacências.. Acari, Parada de Lucas também estavam sempre no noticiário. Me recordo de uma noticia que policiais foram mortos no Jardim América ao tentarem reprimir um pega de automóveis, a quantidade de policiais que eram mortos dentro de ônibus também era alarmante.

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