Não Haverá Carnaval !

Post de 2 anos atrás, embora permaneça atual.

Rorschachbr

03 de Fevereiro de 2011

– Não haverá Carnaval este ano – afirma a repórter no telejornal.

– Hein? Será que pegou fogo de novo? Ou essa repórter andou fumando? – Pensei logo.

– A onda de protestos se espalhou por toda a cidade.

– Protestos? Ela deve estar falando da Líbia, eu que entendi errado.

– É inacreditável. Milhares de pessoas nas ruas em pleno sábado de Carnaval mas não para comemorar, e sim protestando contra os governos estadual e municipal. Médicos, professores, bombeiros, bancários, rodoviários, e outros unidos mas sem os sindicatos.

Então num misto de perplexidade e êxtase fico sabendo do movimento iniciado na internet, por enquanto livre de controle, convocando as pessoas a uma mobilização sem precedentes. Com o slogan “ O que vamos comemorar? ” foi disseminado com grande ajuda das redes sociais um manifesto convocando as pessoas insatisfeitas com as atitudes dos governantes a renunciarem as comemorações este ano. Lembrando as muitas vítimas da tragédia na Região Serrana este ano, da qual nada mais se fala, e também do Morro do Bumba e de Angra dos Reis no ano passado, vários cidadãos anônimos questionaram a população se seria justo participar de um evento no qual são gastos dinheiro dos impostos pagos pelo contribuinte enquanto que serviços essenciais como hospitais, escolas, saneamento, etc… são péssimos. A velha desculpa de gerar renda para o trabalhador é ridícula, pois quem lucra mais é o próprio governo com sua máquina de fabricar multas, até para quem urinar nas ruas. Foi lembrado a gastança do Pan-Americano de 2007 e que não refletiu em nenhum benefício real para a população, a faraônica Cidade da Música, o recente show do cantor Roberto Carlos, entre outros escandalosos assaltos aos cofres públicos. Chegou-se a conclusão de que era hora de mostrar que o carioca não poderia ignorar a precária situação da cidade pois assim os governantes apareceriam bem na mídia, como sempre fazem nessa época, e nada mudaria de verdade. Foi estabelecido que deveria ser um protesto em que os serviços essenciais não deixariam de funcionar e as pessoas deveriam sair às ruas no máximo com cartazes e faixas, evitando o consumo de bebida alcólica para não ocorrer qualquer tipo de confusão. Que todos lembrassem das vítimas diárias do descaso das autoridades e rezassem por elas e seus familiares. Que não comprassem jornais nem assistissem televisão nestes dias. Que não ouvissem as músicas de seus artistas populares, uma cambada de puxa-sacos do governo com raras exceções. Que visitassem hospitais, presídios, orfanatos ou mesmo parentes. Enfim, que ignorassem completamente o clima de festa criado pelas autoridades com a cumplicidade da grande mídia para iludir o povo mantendo-o na passividade e resignação, que tanto interessa aos governantes. Pura Utopia. No Rio de Janeiro então…

É engraçado ver a cara da repórter. Milhares de pessoas nas ruas. Nenhuma confusão. Não há como fazer o drama que ela está acostumada. Não há como culpar ninguém. Não foi difícil convencer os integrantes das escolas de samba. Afinal a maioria mora em favelas. Sabem que não existem para as autoridades. É claro que houve quem não aceitasse. O trabalho de um ano inteiro, disseram alguns. Tudo bem, ninguém foi forçado a nada. Na verdade foram constrangidos pelos seus próprios companheiros.

Como desfilar com pouquíssimos componentes? Desistiram. A televisão ainda tentou entrevistar as pessoas, na esperança de conseguir um depoimento emocionado de alguém lamentando a festa que não vai mais acontecer. O tiro saiu pela culatra. A felicidade era visível no rosto das pessoas:

– Não acho justo gastar esse montão de dinheiro, ainda tem muita gente desabrigada pelas chuvas.

– Acho que seria melhor investir na educação, não vamos esquecer que o Rio está em penúltimo.

– Se as pessoas não beberem não teremos tantas confusões como sempre acontece.

– É chegada a hora do Rio acordar, temos outras prioridades.

Na Zona Sul ainda houve algumas tentativas de alguns blocos de rua sairem, mas apenas os gringos estavam animados, e muitos músicos não compareceram. No resto da cidade o clima era de confraternização. A polícia não estava tendo nenhum trabalho, não havia confusão. Nunca senti uma vontade tão grande de ir para a rua. Normalmente nessa época prefiro ficar em casa para evitar os tumultos, mas eu estava emocionado, com lágrimas nos olhos. O povo acordou, os corruptos devem estar tremendo de medo.

– Amor !!

Sim, o amor de verdade estava nas ruas, não aquela falsa e temporária felicidade do carnaval.

– Amor !!

Sim, esse amor me fez voltar a ter esperança de que é possível o Rio de Janeiro dar a volta por cima.

– Amor, Acorda !!  Você passou da hora!!

Levantei no susto e percebi que era minha esposa gritando comigo.

– Mas, cadê o povo que estava nas ruas?

– Hoje ainda é sexta amor, o carnaval só começa pra valer amanhã. Por que você está chorando? Estava sonhando com algo ruim?

– Na verdade eu estava sonhando com algo muito bom. Muito bom para ser verdade…

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